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jul 6, 2020

Monsieur Gomes

Considerado um dos maiores pesquisadores e críticos de cinema, Paulo Emílio Sales Gomes ajudou a revolucionar o campo cinematográfico. Envolvido na criação da Cinemateca Brasileira e do Festival de Brasília, foi também um dos principais nomes por trás do Cinema Novo. Neste artigo, Rafael Morato Zanatto destrincha a contribuição de Paulo Emílio à formação dos estudos históricos de cinema na Europa, onde viveu no fim dos anos 1930 e, depois, entre 1946 e 1954. Para Zanatto, “encontramos na obra de Paulo Emílio Sales Gomes valiosas sugestões para entendermos como a crítica de cinema se tornou história a partir do estabelecimento de metodologias voltadas à compreensão do cinema enquanto arte, fenômeno e objeto de interesse histórico”. Quer dizer, cinema para além do filme em si, integrado a um contexto mais amplo e mais complexo. A argumentação de Paulo Emílio deriva especificamente de seu mergulho na obra do cineasta francês Jean Vigo, mas a teoria ali elaborada impactaria os estudos de cinema por toda parte.

“Paulo Emílio e a formação dos estudos históricos de cinema na Europa”
Por Rafael Morato Zanatto

Significação (USP)
v. 46, n. 52, 2019


Desordem temporal

Serras da desordem foi assistido por mim, pela primeira vez, no cinema, no ano de seu lançamento, quando causou-me viva impressão”, escreve Marcelo Carvalho em um dos parágrafos iniciais de seu texto. Aqui, sua viva impressão prolonga-se em uma análise construída em três camadas teóricas. Carvalho interpreta o célebre documentário de Andrea Tonacci a partir da imagem-cristal e do duplo temporal em Gilles Deleuze, das questões ligadas à supermodernidade e ao não lugar em Marc Augé, e da temporalidade decorrente das estruturas de agressão em Nöel Burch. Interessado no que chama de bifurcações do tempo, o pesquisador passeia pelos conceitos, àridos à primeira vista, sem jamais abandonador a matéria fílmica. Em uma interpretação filosófica, conduz o leitor sem sobressaltos. Cineasta oriundo do Cinema Marginal dos anos 1960, Tonacci dedicou-se à causa indígena dos anos 1970 em diante. Lançado em 2006, Serras da Desordem é, para muitos, sua obra máxima.

“As bifurcações do tempo: considerações sobre três figuras temporais no filme Serras da Desordem, de Andrea Tonacci”
Por Marcelo Carvalho
Contracampo (UFF)
v. 38, n. 3, 2019

Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006).

 

Rua Domingos Ferreira, 125

Embora já tenha sido estudado em inúmeros artigos, Edifício Master, clássico dirigido por Eduardo Coutinho em 2002, volta à cena neste texto assinado por Helena Oliveira Teixeira de Carvalho e Carlos Pernisa Júnior. Em Copacabana, moradores do edifício em questão concedem entrevistas a Coutinho, enquanto a câmera registra os encontros e aquilo que, a partir deles, nasce. No artigo, a dupla de pesquisadores deseja analisar os personagens recorrendo ao conceito de automise-en-scène, cunhado pelo teórico francês Jean-Louis Commoli. Afinal, a ideia de “uma autorrepresentação dos atores sociais, construída especificamente diante do cineasta e da câmera” é mesmo central ao filme. A estratégia valeria, inclusive, para o cineasta, uma vez que ele também faz parte da encenação. Caberia ainda ao diretor intervir menos, permitindo, assim, que os personagens construam suas próprias representações. “Em Edifício Master, Coutinho dá essa liberdade ao outro, o que contribui para a vitalidade das entrevistas e do filme como um todo”.

“Luz, câmera, ação: como as personagens constroem sua autorrepresentação diante da câmera no documentário Edifício Master”
Por Helena Oliveira Teixeira de Carvalho e Carlos Pernisa Júnior
Geminis (UFSCar)
v. 10, n. 1, 2019

Edifício Master (Eduardo Coutinho, 2002).

Haddad X Bolsonaro

O trio Caroline Perin, Marcio Giusti Trevisol e Maria Pinto Almeida investigam a relação entre comunicação e política neste artigo centrado na disputa à presidência do Brasil entre os candidatos Fernando Haddad (PT) e Jair Messias Bolsonaro (à época, PSL; hoje, sem partido). Na eleição presidencial de 2018, as equipes responsáveis pelos programas eleitorais veiculados em rede nacional traçaram estratégias não apenas distintas, mas opostas. Para analisá-las, os pesquisadores selecionaram três VTs de cada candidato: o primeiro veiculado no início da campanha; o segundo, no meio; e o terceiro, na reta final do primeiro turno. O que pretendiam universalizar em seus discursos e quais elementos caracterizariam suas narrativas midiáticas foram perguntas que guiaram a investigação de Perin, Trevisol e Almeida. Enquanto os VTs de Haddad investiam em um discurso de esperança e defesa da democracia, os de Bolsonaro encampavam valores conservadores de família, religião e pátria, em tom agressivo contra o PT.

“Comunicação e política: análise discursiva das narrativas construídas na eleição presidencial de 2018 no Brasil”
Por Caroline Perin, Marcio Giusti Trevisol e Maria Pinto Almeida
Ação Midiática (UFPR)
n. 19, 2020


Maratona no sofá

Você é adepto do binge-watching? Costuma maratonar séries via streaming por quais motivos? Em questionário específico para fãs de Orange is The New Black, 85,7% disseram que fazem maratonas pelo simples fato de estarem apegados à série, enquanto que 7,1% preferem assistir de forma continuada para melhor acompanhar a trama e 3,6% para se proteger de spoilers. Os dados são de pesquisa desenvolvida por Mayka Castellano e Melina Meimaridis e foram publicados em artigo que aborda as novas formas de espectatorialidade no consumo de ficção seriada televisiva. Ainda que o surgimento do videocassete e, posteriormente, do DVD já houvesse quebrado o modo tradicional de consumo audiovisual, foi com a chegada do streaming que a prática se disseminou. Neste texto, Castellano e Meimaridis estão interessadas tanto no impacto que a popularização da prática causou na experiência do espectador, quanto no próprio desenvolvimento de projetos de ficção seriada.

“Binge-watching is the new black: as novas formas de espectatorialidade no consumo de ficção seriada televisiva”
Por Mayka Castellano e Melina Meimaridis
Contemporanea (UFBA)
v. 16, n. 3, 2018

Orange is The New Black (Netflix, 2013-2019).

Cinema de época

Com a urbanização e a industrialização da Europa no século XIX, as populações citadinas desenvolveram novos hábitos de lazer. Nesse sentido, a chegada do cinema talvez represente o ápice desse processo cultural. Em sua pesquisa, Juliana de Mello Moraes foca na sociedade portuguesa do início do século XX para indicar as mudanças de comportamento, sobretudo do público feminino e do infantil. Ao vasculhar arquivos de jornais e revistas datados de 1900 a 1925, conseguiu “atentar para o convívio e as suas manifestações entre os frequentadores nos espaços de projeção, através dos múltiplos discursos elaborados na época”, além de “avaliar as práticas culturais, as sociabilidades e, ainda, alguns significados atribuídos às salas de cinema pelos contemporâneos”. Moraes seleciona trechos que sugerem, por exemplo, vigilância e controle em relação às mulheres e também menções ao trabalho infantil ainda em voga.

“Mulheres e crianças nas salas de cinema no início do século XX: uma análise sobre os públicos nos espaços de projeção em Portugal”
Juliana de Mello Moraes
Lumina (UFJF)
v. 13, n. 2, 2019


Criador e criaturas

Em 2012, João Emanuel Carneiro escreveu o último grande sucesso entre as telenovelas brasileiras: a Avenida Brasil de Carminha, Nina, Tufão e cia. Diante do desafio de corresponder às expectativas, escorregou ao lançar A Regra do Jogo, três anos depois, sem o magnetismo da antecessora. Ambas, no entanto, possuíam uma notável galeria de personagens femininas. Atenta aos possíveis estereótipos vinculados à ideia de “mulher popular”, a pesquisadora Rosana Mauro analisou, considerando as duas tramas, 27 dessas personagens. Para fins metodológicos, criou, então, sete categorias: emergentes, piriguetes, mocinhas, vilãs, mentoras, evangélicas e empregadas domésticas. No estudo, a noção de “mulher popular” utilizada por Rosana Mauro tem como embasamento o conceito marxista de classe social. Antes de avaliar a construção das personagens, a pesquisadora discute a fundo a construção do gênero feminino, as relações de poder no Brasil e o papel dos meios de comunicação de massa.

“Tipologias da mulher popular em duas telenovelas de João Emanuel Carneiro”
Por Rosana Mauro
Geminis (UFSCar)
v. 9, n. 2, 2018


Cubo branco e caixa preta

Neste artigo, Eduardo Antonio de Jesus detém-se às dinâmicas do espaço para pensar as interseções entre arte e cinema. Dedica-se ao cubo branco, no qual a produção artística é exposta em museus e galerias, e à caixa preta, sala escura em que filmes são projetados. Dos anos 1960 para cá, no entanto, uma revolução. A videoarte infiltrou o audiovisual no cubo branco, e a própria ideia de cubo branco passou a ser questionada. Nesse contexto, o autor destaca Cosmococa – programa in progress (1973-1974), de Hélio Oiticica e Neville d’Almeida, como um marco na arte brasileira. Em seu quasi-cinema, “Oiticica tensiona a narrativa linear do cinema e seus modos de exibição”, avalia. Para ele, videoartistas que surgiriam dos anos 1980 em diante devem muito às experimentações de HO e sua geração. Na segunda metade do artigo, o autor analisa o projeto curatorial de Jochen Volz para a 32ª Bienal de São Paulo, tendo em mente a conversa que se dá entre obras audiovisuais no Parque Ibirapuera e o que se pode extrair dessa conversa.


“A imagem em movimento e os espaços da arte contemporânea: outras formulações do audiovisual”
Por Eduardo Antonio de Jesus
Famecos (PUC-RS)
v. 26, n. 3, 2019

 

32ª Bienal de São Paulo.