Time dos sonhos
Formado em 2013, o Dream Team do Passinho ecoa o funk e a cultura da favela carioca para o mundo. Na internet, o grupo musical tem forte apelo – em particular, em dois canais no YouTube. Neste artigo, Darciele Marques Menezes e Sandra Rubia Silva investigam as diferenças entre o canal original do DTP e aquele lançado após o contrato com a gravadora Sony Music. As autoras fizeram um mapeamento do que é postado em ambos os canais: quantidade de vídeos, número de visualizações, tempo de duração e volume de comentários. Elas se perguntam se haveria interferência na forma como o novo canal apresenta o DTP e até que ponto isso afetaria a autonomia artística do grupo. “As diferentes vozes – a periferia, a instância mercadológica, a instância midiática e os anseios de casa participante do grupo, dentre outros – que o DTP compreende por vezes não orquestram as mesmas intenções”.
“O Dream Team do Passinho: relações de visibilidade e celebrização”
Por Darciele Marques Menezes e Sandra Rubia Silva
Comunicação & Informação (UFG)
v. 23, 2020
Dentro de casa
Ao escrever sobre Santiago (João Moreira Salles, 2007), Babás (Consuelo Lins, 2010) e Doméstica (Gabriel Mascaro, 2012), Mariana Souto joga luz sobre as relações de classe que definem a sociedade brasileira. Mais do que isso, a pesquisadora atenta para o fato de que as dinâmicas de tais relações também se refletem na feitura dos filmes. “No cinema documentário, além dos temas e sujeitos tornados imagem, imprime-se também as marcas da relação entre documentaristas e documentados, relação esta permeada por ingredientes de poder”, pontua. As tensões que marcam as interações sociais não desaparecem quando ganham a tela; ao contrário, são sublinhadas. Desse modo, Souto vai investigar “em que medida relações de classe extrafílmicas informam e modulam tais obras documentais”. No caso de Santiago e Babás, a narração em primeira pessoa – representando o ponto de vista de Salles e de Lins, respectivamente – também é posta à prova.
“Relações de classe em documentários brasileiros contemporâneos”
Por Mariana Souto
Significação (USP)
v. 47, n. 53, 2020
Cinemateca e ditadura
O pesquisador Fabián Núñez analisa a gestão de Cosme Alves Netto na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, iniciada no ano de 1965, já sob a Ditadura Militar (1964-1985). Embora Cosme tenha exercido a função até 1989, a análise de Núñez tem como foco as ações empreendidas por ele na virada dos anos 1960 para os 1970, período em que o regime recrudesceu. Além de importante centro de difusão, produção e formação audiovisual, a Cinemateca conseguiu preservar em seu acervo negativos considerados subversivos à época – entre eles, a primeira versão de Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, arquivado como A Rosa do Campo para evitar suspeitas. Cosme ainda fez esforços para abrir diálogo com outras cinematecas, sobretudo as latino-americanas. Como mostra o artigo, naqueles anos de chumbo, “apesar do clima político adverso, a Cinemateca do MAM-RJ consegue se manter como um polo catalisador de cultura cinematográfica no Rio de Janeiro”.
“Reflexões sobre a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro na virada dos anos 1960 aos 1970”
Por Fabián Núñez
Significação (USP)
v. 45, n. 50, 2018
Iconosfera colonial
O que é a América Latina? Foi ela descoberta ou inventada? Aliás, de onde vem essa nomenclatura? Dois filmes lançados em 2017 parecem interessados na construção do que seria uma identidade latino-americana. Tanto Zama, da argentina Lucrecia Martel, quanto Joaquim, do brasileiro Marcelo Gomes, voltam ao século XVIII para examinar nosso passado colonial. Com a colaboração da diretora de arte Renata Pinheiro em Zama e do diretor de arte Marcos Pedroso e da figurinista Rô Nascimento em Joaquim, as duas obras ganham musculatura aos olhos do espectador. Com uma lupa, os pesquisadores Ignacio Del Valle e Tainá Xavier se debruçam sobre ambas as produções para desvendar justamente como a direção de arte é corresponsável por dar forma a uma certa identidade da América Latina. “Nos filmes analisados, a direção de arte empreenderá uma revisão minuciosa e desmonumentalizante da iconosfera da última fase do colonialismo”, explicam.
“Direção de arte em Zama e Joaquim como materialização de identidades híbridas latino-americanas”
Por Ignacio Del Valle Dávila e Tainá Xavier
Contemporanea (UFBA)
v. 17, n. 3, 2019
Por uma outra telenovela
Luiz Fernando Carvalho conduziu trabalhos dos mais inventivos na teledramaturgia nacional. Neste texto, Marcelo Moreira Santos destrincha a linguagem que o diretor desenvolveu para Velho Chico, novela das 21h escrita por Benedito Ruy Barbosa e levada ao ar em 2016. Em sua argumentação, o pesquisador lembra que, embora única em sua estruturação, Velho Chico pode ser vista como o ápice de um percurso criativo marcado por Hoje é Dia de Maria (2005), A Pedra do Reino (2007) e Meu Pedacinho de Chão (2014). Santos aponta que a essa criatividade soma-se uma gramática do melodrama exercitada por Carvalho em Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996), ambas escritas por Ruy Barbosa. Nesse sentido, Velho Chico teria como uma de suas missões “superar uma organização já engessada pelo tempo: a própria padronização da telenovela brasileira”.
“Velho Chico: uma jornada intelectual rumo a uma poética mestiça”
Por Marcelo Moreira Santos
Famecos (PUC-RS)
v. 26, n. 3, 2019
Most beautiful thing
Em seu movimento de expansão global, a Netflix tem no Brasil uma de suas principais praças. Para conquistar e consolidar essa audiência, a plataforma vem investindo pesadamente em ficção seriada. Depois de 3%, O Mecanismo e Samantha!, foi a vez de Coisa Mais Linda ser disponibilizada no ano de 2019. Em texto escrito a seis mãos, Clarice Greco, Gustavo Souza e Simone Luci Pereira percebem que essas “narrativas exploram as qualidades de uma ‘brasilidade rentável’, que retrate aspectos do Brasil para o mercado nacional, mas que tenha potencial de conquistar públicos estrangeiros”. Para o trio, o Rio de Janeiro, o samba, a bossa nova e o morro são mobilizados por serem comumente associados no exterior a um imaginário sobre o Brasil. Além disso, os autores apontam que, embora se passe em 1959, a série trata de assuntos caros aos dias de hoje – a igualdade de gênero como destaque. “Imagem e discurso articulam uma dialética entre passado e presente, ou seja, as personagens estão no passado, seus discursos estão no presente”.
“Consumo midiático, localismos e cosmopolitismos: a série brasileira Coisa mais linda”
Por Clarice Greco, Gustavo Souza e Simone Luci Pereira
Lumina (UFJF)
v. 14, n. 1, 2020
Othon & Glauber
“Othon Bastos é, sem favor, um dos maiores e mais completos atores brasileiros dos últimos 60 anos, com carreira muito imponente no teatro, no cinema e na televisão”. É assim que Mateus Araújo e Cyril Béghin abrem a entrevista com o ator Othon Bastos publicada na revista ECO-Pós da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Centrada na relação do ator com o cineasta Glauber Rocha, a conversa aconteceu entre os anos de 2004 e 2005, por ocasião de uma retrospectiva integral da obra do diretor cinemanovista na França. Originalmente publicada em francês, sua tradução para o português integrou o dossiê sobre estudos atorais da revista da UFRJ. É uma oportunidade de conhecer um pouco mais os bastidores de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), parcerias entre Glauber e Othon que entraram para a história do cinema brasileiro.
“Brecht, Glauber, Deus, o Diabo e o Dragão: entrevista com Othon Bastos”
Por Mateus Araújo e Cyril Béghin
ECO-Pós (UFRJ)
v. 22, n. 1, 2019

