Nós vamos sorrir
Primeiro filme brasileiro vencedor do Oscar, Ainda Estou Aqui arrebatou plateias mundo afora. Dirigido por Walter Salles e baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o filme narra a história de Eunice Paiva, que precisa reinventar a própria vida após ver seu marido, o ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva, ser levado pelo regime militar em 1971 para nunca mais voltar. Neste artigo, Patrícia Azambuja procura entender como a direção de fotografia de Adrian Teijido trabalhou para construir a imagem cinematográfica do longa, dialogando com a direção de arte de Carlos Conti e o figurino de Cláudia Kopke. “A poética do filme está em não apresentar este contexto histórico de forma explícita, apenas seus efeitos agudos em um grupo familiar. Inicialmente, pleno de possibilidades, para então ser alijado de sua existência abruptamente”, explica a pesquisadora.
“Distinções e encontros entre as materialidades da fotografia e da arte no audiovisual: caso “Ainda estou aqui” (2024, Walter Salles)”
Por Patrícia Azambuja
Revista Científica (UNESPAR)
v. 32, n. 1, 2025
As Mostras Internacionais
A chegada do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro alterou significativamente a cultura cinéfila na cidade. Arte moderna por excelência, o cinema foi logo assimilado pela instituição por meio de mostras apresentadas pela Cinemateca do MAM Rio. Entre os anos de 1958 e 1962, a curadoria dedicou programas específicos às cinematografias dos Estados Unidos, França, Itália, Rússia e União Soviética. A partir de pesquisa realizada nos acervos da Cinemateca e em consultas a veículos de imprensa, Fabián Núñez ressalta “a extrema relevância – e, principalmente, a autoconsciência disso – das Mostras para a imagem institucional da Cinemateca do MAM, assim como o seu papel na formação de um público próprio (que, claro, não se constituiu apenas graças a essas Mostras)”. Os rumos que os anos 1960 tomaram, no entanto, interromperiam esse movimento.
“As Mostras Internacionais de Arte Cinematográfica da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1958-1962)”
Por Fabián Núñez
Rebeca (SOCINE)
v. 14, n. 1, 2025
Desbunde e curtição
A contracultura brasileira dos anos 1960 e 1970 revolucionou os costumes, o que incluiu a própria maneira de se expressar. Difundida por artistas da estirpe de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Moraes Moreira, a ideia de curtição entrou e nunca mais saiu de cena. Neste ensaio repleto de referências artísticas, Rafael Mendonça Dias posiciona Meteorango Kid, o Herói Intergalático (1969), estreia do diretor André Luiz Oliveira, como uma tradução visual do desbunde face ao autoritarismo. O filme termina com o protagonista em close-up, e uma cartela que diz “Procura-se, vivo ou morto”. Depois do fade out, uma última cartela: “Curti adoidado.” Essa tensão entre o horror e a curtição durante a ditadura militar brasileira foi esteticamente captada pelo chamado Cinema Marginal, como afirmou o crítico Fernão Ramos. Ao perseguir os muitos usos derivados do verbo curtir, Mendonça Dias empreende uma viagem fascinante pela produção cultural do Brasil.
“‘E Novos Baianos te podem curtir numa boa’: uma genealogia da curtição entre o cinema marginal e a canção popular brasileira”
Por Rafael Mendonça Dias
A Barca (UFF)
v. 3, n. 1, 2025
Metrópole amazônica
Protagonista da COP30, Belém é objeto de estudo de Ival de Andrade Picanço Neto, Dóris Karoline Rocha da Costa e Francisco Pereira Smith Junior. O trio analisa a capital paraense no curta-metragem documental Belém 350 Anos, dirigido por Líbero Luxardo em 1966. Alinhado com as elites, o cineasta celebra Belém como uma metrópole que conjugava o tradicional e o moderno, cobrindo da procissão do Círio de Nazaré aos clubes e cinemas da época. Antes de chegarem à análise fílmica, os pesquisadores dissertam sobre o processo de urbanização da capital e a alcunha de metrópole amazônica disseminada a partir dos anos 1950. Em sua crítica, apontam para a imagem de Belém como um cartão-postal que privilegiava o centro e excluía a periferia. “É como se ela nem sequer existisse, evidenciando uma nítida tentativa de exclusão da população e das localidades marginalizadas, de uma Belém que a elite não quer ver ou mostrar.”
“Fisionomia urbana: a cidade de Belém (PA) enquanto metrópole no curta-metragem Belém 350 Anos”
Por Ival de Andrade Picanço Neto, Dóris Karoline Rocha da Costa e Francisco Pereira Smith Junior
Significação (USP)
v. 52, 2025
A mulher em Bollywood
Ao fazerem uma breve introdução aos pilares da formação da cultura indiana, Ivan Marcos Ribeiro, Caroline Silva Ribeiro e Jéssica Regina Guerra de Souza preparam o terreno para investigar a representação da mulher em Bollywood. Destaque internacional, a indústria cinematográfica da Índia evoluiu, mas nem tanto assim, em relação aos personagens femininos – é o que ressaltam os autores deste artigo. Tendo os filmes Piku (2015) e A Voz do Empoderamento (2022) sob análise, eles percebem um avanço decorrente de debates contemporâneos incitados por movimentos como o Me Too. Ao mesmo tempo, reparam que as narrativas continuam comumente baseadas em tramas românticas. Desse modo, “por mais que a transformação ocorra, seu impacto ainda não se mostra significativo a ponto de ser possível afirmar que, finalmente, há uma nova mulher nas produções bollywoodianas”, concluem.
“A representação da ‘nova mulher’ indiana em Bollywood: uma leitura das obras dos filmes Piku (2015) e A Voz do Empoderamento (2022)”
Por Ivan Marcos Ribeiro, Caroline Silva Ribeiro e Jéssica Regina Guerra de Souza
Culturas Midiáticas (UFPB)
v. 19, 2023
O vampiro melancólico
O vampiro como um sujeito melancólico é a premissa deste artigo de Isabella Gaeta e Laura Loguercio Cánepa sobre o longa-metragem Entrevista com o Vampiro (1994). O olhar original das pesquisadoras mira no protagonista Louis de Pointe du Lac para abordar a ligação do personagem com a passagem do tempo e as inovações tecnológicas, do século XVIII ao XX. Fadado à repetição e ao distanciamento afetivo, “Louis é um morto-vivo não apenas por ser um vampiro, mas por encarnar, em sua existência, a própria estrutura da melancolia”, defendem. Entre referências a Sigmund Freud e Walter Benjamin, as autoras encontram na contribuição de Julia Kristeva a chave central de sua análise: o melancólico como um sujeito em crise tanto linguística quanto existencial. Na trama, a entrevista concedida pelo vampiro a um jovem jornalista expõe sua tentativa de elaborar diante dos fantasmas que o assombram.
“Melancolia imortal: tecnologia, sociedade e temporalidade em Entrevista com o vampiro (1994)”
Isabella Gaeta e Laura Loguercio Cánepa
Passagens (UFC)
v. 16, n. 1, 2025
#BookTok
Até novembro de 2023, foram 192,8 bilhões de visualizações de conteúdos com a hashtag #BookTok na rede social TikTok. Especializados em literatura, esses vídeos aquecem a plataforma e constroem uma comunidade de usuários engajados. Um aspecto curioso desse fenômeno é a relação com o spoiler – termo da língua inglesa utilizado quando alguma informação da trama de um livro, filme ou série é revelada por alguém, normalmente sem consentimento. Na comunidade do #BookTop, no entanto, a prática é aceita e até impulsionada pelo algoritmo. Neste artigo, Leonardo Pastor e Lisane Rocha investigam como funciona esse fenômeno, quais os gêneros associados à prática e de que forma o TikTok e o mercado editorial se imbricam. Ao contrário do que pode parecer, a busca por spoilers funciona como uma filtragem: se o usuário gostar do que vai acontecer com os personagens, o livro entra em sua lista de leitura.
“Tem final feliz? A relação entre literatura e spoiler no TikTok”
Por Leonardo Pastor e Lisane Rocha
Eco-Pós (UFRJ)
v. 28, n. 1, 2025

