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out 5, 2020

Time dos sonhos

Formado em 2013, o Dream Team do Passinho ecoa o funk e a cultura da favela carioca para o mundo. Na internet, o grupo musical tem forte apelo – em particular, em dois canais no YouTube. Neste artigo, Darciele Marques Menezes e Sandra Rubia Silva investigam as diferenças entre o canal original do DTP e aquele lançado após o contrato com a gravadora Sony Music. As autoras fizeram um mapeamento do que é postado em ambos os canais: quantidade de vídeos, número de visualizações, tempo de duração e volume de comentários. Elas se perguntam se haveria interferência na forma como o novo canal apresenta o DTP e até que ponto isso afetaria a autonomia artística do grupo. “As diferentes vozes – a periferia, a instância mercadológica, a instância midiática e os anseios de casa participante do grupo, dentre outros – que o DTP compreende por vezes não orquestram as mesmas intenções”.

“O Dream Team do Passinho: relações de visibilidade e celebrização”
Por Darciele Marques Menezes e Sandra Rubia Silva
Comunicação & Informação (UFG)
v. 23, 2020

Dream Team do Passinho no videoclipe De Ladin (2015).

Dentro de casa

Ao escrever sobre Santiago (João Moreira Salles, 2007), Babás (Consuelo Lins, 2010) e Doméstica (Gabriel Mascaro, 2012), Mariana Souto joga luz sobre as relações de classe que definem a sociedade brasileira. Mais do que isso, a pesquisadora atenta para o fato de que as dinâmicas de tais relações também se refletem na feitura dos filmes. “No cinema documentário, além dos temas e sujeitos tornados imagem, imprime-se também as marcas da relação entre documentaristas e documentados, relação esta permeada por ingredientes de poder”, pontua. As tensões que marcam as interações sociais não desaparecem quando ganham a tela; ao contrário, são sublinhadas. Desse modo, Souto vai investigar “em que medida relações de classe extrafílmicas informam e modulam tais obras documentais”. No caso de Santiago e Babás, a narração em primeira pessoa – representando o ponto de vista de Salles e de Lins, respectivamente – também é posta à prova.

“Relações de classe em documentários brasileiros contemporâneos”
Por Mariana Souto
Significação (USP)
v. 47, n. 53, 2020

Doméstica (Gabriel Mascaro, 2012).

Cinemateca e ditadura

O pesquisador Fabián Núñez analisa a gestão de Cosme Alves Netto na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, iniciada no ano de 1965, já sob a Ditadura Militar (1964-1985). Embora Cosme tenha exercido a função até 1989, a análise de Núñez tem como foco as ações empreendidas por ele na virada dos anos 1960 para os 1970, período em que o regime recrudesceu. Além de importante centro de difusão, produção e formação audiovisual, a Cinemateca conseguiu preservar em seu acervo negativos considerados subversivos à época – entre eles, a primeira versão de Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, arquivado como A Rosa do Campo para evitar suspeitas. Cosme ainda fez esforços para abrir diálogo com outras cinematecas, sobretudo as latino-americanas. Como mostra o artigo, naqueles anos de chumbo, “apesar do clima político adverso, a Cinemateca do MAM-RJ consegue se manter como um polo catalisador de cultura cinematográfica no Rio de Janeiro”.

“Reflexões sobre a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro na virada dos anos 1960 aos 1970”
Por Fabián Núñez

Significação (USP)
v. 45, n. 50, 2018


Iconosfera colonial

O que é a América Latina? Foi ela descoberta ou inventada? Aliás, de onde vem essa nomenclatura? Dois filmes lançados em 2017 parecem interessados na construção do que seria uma identidade latino-americana. Tanto Zama, da argentina Lucrecia Martel, quanto Joaquim, do brasileiro Marcelo Gomes, voltam ao século XVIII para examinar nosso passado colonial. Com a colaboração da diretora de arte Renata Pinheiro em Zama e do diretor de arte Marcos Pedroso e da figurinista Rô Nascimento em Joaquim, as duas obras ganham musculatura aos olhos do espectador. Com uma lupa, os pesquisadores Ignacio Del Valle e Tainá Xavier se debruçam sobre ambas as produções para desvendar justamente como a direção de arte é corresponsável por dar forma a uma certa identidade da América Latina. “Nos filmes analisados, a direção de arte empreenderá uma revisão minuciosa e desmonumentalizante da iconosfera da última fase do colonialismo”, explicam.

“Direção de arte em Zama e Joaquim como materialização de identidades híbridas latino-americanas”
Por Ignacio Del Valle Dávila e Tainá Xavier
Contemporanea (UFBA)
v. 17, n. 3, 2019

Zama (Lucrecia Martel, 2017).

Por uma outra telenovela

Luiz Fernando Carvalho conduziu trabalhos dos mais inventivos na teledramaturgia nacional. Neste texto, Marcelo Moreira Santos destrincha a linguagem que o diretor desenvolveu para Velho Chico, novela das 21h escrita por Benedito Ruy Barbosa e levada ao ar em 2016. Em sua argumentação, o pesquisador lembra que, embora única em sua estruturação, Velho Chico pode ser vista como o ápice de um percurso criativo marcado por Hoje é Dia de Maria (2005), A Pedra do Reino (2007) e Meu Pedacinho de Chão (2014). Santos aponta que a essa criatividade soma-se uma gramática do melodrama exercitada por Carvalho em Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996), ambas escritas por Ruy Barbosa. Nesse sentido, Velho Chico teria como uma de suas missões “superar uma organização já engessada pelo tempo: a própria padronização da telenovela brasileira”.

“Velho Chico: uma jornada intelectual rumo a uma poética mestiça”
Por Marcelo Moreira Santos
Famecos (PUC-RS)
v. 26, n. 3, 2019

Velho Chico (TV Globo, 2016).

Most beautiful thing

Em seu movimento de expansão global, a Netflix tem no Brasil uma de suas principais praças. Para conquistar e consolidar essa audiência, a plataforma vem investindo pesadamente em ficção seriada. Depois de 3%, O Mecanismo e Samantha!, foi a vez de Coisa Mais Linda ser disponibilizada no ano de 2019. Em texto escrito a seis mãos, Clarice Greco, Gustavo Souza e Simone Luci Pereira percebem que essas “narrativas exploram as qualidades de uma ‘brasilidade rentável’, que retrate aspectos do Brasil para o mercado nacional, mas que tenha potencial de conquistar públicos estrangeiros”. Para o trio, o Rio de Janeiro, o samba, a bossa nova e o morro são mobilizados por serem comumente associados no exterior a um imaginário sobre o Brasil. Além disso, os autores apontam que, embora se passe em 1959, a série trata de assuntos caros aos dias de hoje – a igualdade de gênero como destaque. “Imagem e discurso articulam uma dialética entre passado e presente, ou seja, as personagens estão no passado, seus discursos estão no presente”.

“Consumo midiático, localismos e cosmopolitismos: a série brasileira Coisa mais linda
Por Clarice Greco, Gustavo Souza e Simone Luci Pereira
Lumina (UFJF)
v. 14, n. 1, 2020


Othon & Glauber

“Othon Bastos é, sem favor, um dos maiores e mais completos atores brasileiros dos últimos 60 anos, com carreira muito imponente no teatro, no cinema e na televisão”. É assim que Mateus Araújo e Cyril Béghin abrem a entrevista com o ator Othon Bastos publicada na revista ECO-Pós da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Centrada na relação do ator com o cineasta Glauber Rocha, a conversa aconteceu entre os anos de 2004 e 2005, por ocasião de uma retrospectiva integral da obra do diretor cinemanovista na França. Originalmente publicada em francês, sua tradução para o português integrou o dossiê sobre estudos atorais da revista da UFRJ. É uma oportunidade de conhecer um pouco mais os bastidores de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), parcerias entre Glauber e Othon que entraram para a história do cinema brasileiro.

“Brecht, Glauber, Deus, o Diabo e o Dragão: entrevista com Othon Bastos”
Por Mateus Araújo e Cyril Béghin
ECO-Pós (UFRJ)
v. 22, n. 1, 2019