Chantal Akerman
Referência incontornável na história do cinema mundial, a cineasta belga Chantal Akerman dirigiu obras inquietantes. Neste artigo, Natalia Marchiori da Silva olha para o curta-metragem Saute Ma Ville (1968) e o longa-metragem Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975) como filmes que “possuem a capacidade de gerar sensações e sentimentos de claustrofobia doméstica na espectatorialidade”. Essa crítica à domesticidade está totalmente conectada às discussões da segunda onda feminista que encontrava eco na teoria e na prática do cinema dos anos 1970. Na argumentação, a autora destaca o posicionamento da câmera, por exemplo, como recurso estilístico na criação de um senso claustrofóbico na mise-en-scène. “Através dos seus sistemas de orquestração de cena e repetições, os filmes expõem e transmitem o aprisionamento das personagens, tornando-os potentes objetos analíticos para as pautas femininas e feministas.”
“A crítica à domesticidade nos filmes de Chantal Akerman: Saute ma ville (1968) e Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975)”
Por Natalia Marchiori da Silva
Revista Científica de Artes (Unespar)
v. 29, n. 2, 2023
Cinemas da Ancine
Criada em 2001, a Agência Nacional do Cinema, mais conhecida como Ancine, vem desempenhando papel fundamental no fomento, regulação e fiscalização da produção cinematográfica brasileira. Neste texto, Arthur Autran analisa dados referentes a lançamentos de longas-metragens entre os anos de 2006 e 2017. “O que ocorreu ao longo do período, aparentemente, foi uma tendência na qual mulheres, negros, pessoas residentes fora do eixo Rio de Janeiro–São Paulo passaram a ter maior oportunidade de dirigir um longa-metragem”, aponta. Para fins analíticos, o autor propõe uma divisão dessa produção em quatro categorias: cinema comercial, cinema de autor, cinema de vanguarda e cinema de lutas identitárias. Como nem tudo são flores, Autran aproveita para aprofundar a discussão sobre os conflitos que surgiram no setor.
“Divisões e confrontos do campo cinematográfico brasileiro em tempos de Ancine (2006-2017)”
Por Arthur Autran
Rebeca (SOCINE)
v. 12, n. 1, 2023
Desconstrução franco-brasileira
Tudo mudou para o cinema depois de 1968. Na França, a experiência da Nouvelle Vague, sobretudo aquela associada ao nome de Jean-Luc Godard, explorou a produção audiovisual em uma chave vanguardista. O pesquisador Leonardo Gomes Esteves procura por ramificações dessa experiência fora da França, com especial interesse na produtora brasileira Belair, fundada pela atriz Helena Ignez e pelos cineastas Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, em 1970. “Pensar a desconstrução do cinema brasileiro a partir de 68 necessita, entretanto, incorporar alguns valores que estão fora do radar dos franceses e dizem respeito a uma identidade tipicamente latino-americana, periférica”, afirma. É inegável que o Cinema Marginal, representado pelas obras de Sganzerla e Bressane, forjou, em resposta ao Cinema Novo, traço importante dessa identidade.
“Pensar a desconstrução do cinema a partir de 68”
Por Leonardo Gomes Esteves
ARS (São Paulo)
v. 20, n. 46, 2022
Desenhos da História
Ana Vaz é um dos expoentes do cinema experimental brasileiro hoje. Em Apiyemiyekî? (2020), a realizadora aborda o genocídio do povo Waimiri-Atroari pela ditadura civil-militar (1964-1985). Para narrar o trauma, ela incorpora à linguagem cinematográfica desenhos elaborados por sobreviventes, “um meio para relatar de forma gráfica, imagética e silenciosa as consequências do contato com o homem dito civilizado, marcado por violentos ataques, revelando parte de uma história traumática”. Em uma minuciosa análise fílmica, Giuliana Ronna e Cristiane Freitas Gutfreind defendem que ao “absorver todo um vocabulário gráfico, seja ele desenho, letras ou gestos de escrita e leitura,o filme acaba interrogando os aspectos históricos e subjetivos daquilo que se propõe a narrar, a partir do que resta na imagem enquanto traço inscrito”.
“O traço como reinscrição política no filme Apiyemiyekî?”
Por Giulianna Ronna e Cristiane Freitas Gutfreind
PÓS (UFMG)
v. 13, n. 29, 2023
As mortes do cinema
Com a ascensão dos serviços de streaming, as salas de cinema já vinham perdendo público. Depois da pandemia de covid-19, a crise do setor se agravou. A morte do cinema, no entanto, é assunto antigo. “Se antes essa morte era motivada por questionamentos ontológicos da forma, agora ela também ocorre pela pressuposição da morte dos dispositivos, alguns deles, no caso, o dispositivo da sala de cinema”, avaliam Marcos Kahtalian e Leda Tenório da Motta. Para ambos, os dispositivos não apenas resistem, como podem ser recriados, a exemplo do retorno dos cinemas drive-in. Neste texto, os pesquisadores recuperam o debate sobre a morte do cinema e o atualizam à luz do contexto pandêmico, momento em que a ideia de coletividade e a experiência social partilhada ganharam outros significados.
“Nenhum dispositivo a menos: sobre a experiência da ausência da sala de cinema”
Por Marcos Kahtalian e Leda Tenório da Motta
Contemporanea (UFBA)
v. 20, n. 2, 2022
Arqueologia feminista
Agentes ativos desde os primórdios da produção cinematográfica, as mulheres tiveram boa parte de sua contribuição apagada ao longo das décadas. Vitória Gondim Real Nunes e Vanessa Paula Trigueiro Moura vão atrás de preencher as lacunas não só dos arquivos de cinema, mas também dos arquivos de escritos sobre o cinema. Assim como outras pesquisadoras, elas se empenham em “uma verdadeira arqueologia feminista” para a sétima arte. Entre os nomes resgatados, está o de Alice Guy-Blaché, considerada a primeira diretora mulher do mundo, após ter realizado o primeiro filme narrativo da história do cinema no ano de 1896. No Brasil, as autoras mencionam o pioneirismo de Cleo de Verberena, que, em 1931, se tornou a primeira brasileira a dirigir um longa-metragem com o lançamento de O Mistério do Dominó Preto.
“O arquivo fílmico e o apagamento da participação das mulheres nas primeiras décadas do cinema”
Por Vitória Gondim Real Nunes e Vanessa Paula Trigueiro Moura
Passagens (UFC)
v. 14, 2023
O Deus global
Especialista em telenovelas espíritas, Marcos Vinicius Meigre e Silva se debruça sobre três exemplares escritos por distintos autores e que fizeram sucesso em décadas diferentes. São eles: A Viagem, de Ivani Ribeiro, exibido em 1994; Alma Gêmea, de Walcyr Carrasco, em 2005; e Além do Tempo, de Elizabeth Jhin, em 2015, todos produzidos pela TV Globo. Neste artigo, Silva analisa momentos-chave das tramas, que ele vai chamar de eventos narrativos, em que especificamente a temática divina ganha espaço. “Aqui, o tema Deus está relacionado a espiritualidade e, dessa forma, examinar microssituações vinculantes ao plot central revela como a trama desenrolou a temática por meio do estilo em diálogo com marcas socioculturais”, escreve. Considerando o grupo de personagens analisado, está em jogo uma percepção dual desse Deus: ele tanto pode ser onipotente quanto ausente.
“‘Que Deus é esse?’: os sentidos de divindade em telenovelas espíritas”
Por Marcos Vinicius Meigre e Silva
Galáxia (PUC-SP)
v. 48, n. 1, 2023

