Dimensões políticas
Dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, Café com Canela (2017) é o objeto de estudo deste artigo. Nicácio, vale destacar, é a primeira cineasta negra brasileira a dirigir um longa-metragem em mais de 30 anos – Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio, havia sido o único até então. Aqui, Café com Canela é analisado sob dimensões políticas ligadas ao modo de produção, à mobilização de representações e a interpretações suscitadas a partir de sua circulação. Para o pesquisador Eduardo Paschoal de Sousa, o filme está em sintonia com debates que vêm ocorrendo ao longo das duas últimas décadas em relação a questões de classe social, gênero, sexualidade, raça e etnia. Em sua análise fílmica, destaca ainda a importância da partilha da memória coletiva e a reivindicação de uma subjetividade através dos personagens.
“Café com canela e as dimensões políticas do cinema brasileiro recente: produção, representações e circulação”
Por Eduardo Paschoal de Sousa
Cambiassu (UFMA)
v. 18, n. 31, 2023
Materialismo histórico-cinematográfico
Pesquisadores de cinema podem até ter familiaridade com a produção russo-soviética devido à importância da mesma no campo de estudos cinematográficos, mas não necessariamente o grande público. Como forma de apresentar essa produção de modo acessível, Adriano Medeiros Costa e Elizangela Justino de Oliveira a dividem em três, associando-as a períodos históricos distintos: Império Russo (1896-1917), União Soviética (1917-1991) e Federação Russa (1991-). Costa e Oliveira defendem que o materialismo histórico marxista é o que melhor explica como “as transformações nos sistemas econômicos do país acabaram refletindo em sua infraestrutura tecnológica e na superestrutura ideológica” e, portanto, em seus filmes. Em comum nos três períodos, há o entendimento “de que o cinema, assim como sua literatura, necessariamente precisava retratar a mística da ‘alma russa’ enquanto um sentimento nacionalista, ainda que estivessem atentos ao que se fazia na Europa e nos EUA”.
“O cinema russo-soviético: uma proposta de periodização”
Por Adriano Medeiros Costa e Elizangela Justino de Oliveira
Comunicação & Informação (UFG)
v. 26, 2023
Por uma ética documental
Mais de meio século depois, o que Crônica de um Verão tem a dizer? O documentário de Jean Rouch e Edgar Morin é o ponto de partida da pesquisadora Thífani Postali para problematizar a ética na construção de obras audiovisuais permeadas por questões sociais. Postali faz isso a partir das contribuições de estudiosos como Martin Buber, Bill Nichols, Guy Gauthier e Marcius Freire. Realizado em 1960, Crônica de um Verão mostra o cotidiano de jovens em Paris, abordando-os nas ruas e interagindo com eles – uma novidade cinematográfica possibilitada pelo avanço da tecnologia de captação de som e imagem. Conhecido como cinéma vérité, a metodologia proposta por Rouch e Morin abriu um campo teórico fértil que se estende aos dias de hoje. “Há 63 anos, Chronique d’un Été nos apresenta um caminho possível para se estabelecer relações éticas entre as pessoas e que transcende o fazer documentário (…)”, argumenta Postali.
“Atemporalidade de Chronique d’un Été: reflexões sobre a ética no documentário e na sociedade”
Por Thífani Postali
Famecos (PUC-RS)
v. 30, n. 1, 2023
Cinema e pedagogia
“Se, no passado, aprendia-se sobre ser criança, ser menina/mulher, menino/homem através da igreja, família, escola e outras instituições, na contemporaneidade, essa concepção amplia-se para além dessas instituições”, escrevem Jéssica Maria Freisleben e Lutiere Dalla Valle. Interessadas nas narrativas audiovisuais voltadas ao público infantil, as pesquisadoras buscam investigar os efeitos que tais narrativas geram nas crianças. Nesse sentido, a dupla se propõe “a questionar os modos de ver e perceber como operam essas representações na constituição de seus repertórios visuais e como intervêm na produção de seus imaginários”. Ao entenderem o cinema também como um dispositivo pedagógico, jogam luz sobre possibilidades de aprendizagem vinculadas a pedagogias culturais, preocupadas em alargar a compreensão do mundo ao redor.
“Quando as crianças encontram o cinema: narrativas que ensinam modos de ser e estar”
Por Jéssica Maria Freisleben e Lutiere Dalla Valle
Visualidades (UFG)
v. 21, 2023
Recomendados para você
Fundada em 1997, transportada para o ambiente online em 2007 e hoje contando com mais de 200 milhões de assinantes, a Netflix é uma gigante do streaming mundial. Em paralelo, passou a investir na tecnologia de algoritmos. O sistema de recomendações de conteúdos na plataforma é um exemplo disso. Na teoria, esse sistema se baseia nos dados coletados sobre o que o usuário já consumiu e também no que usuários de perfis semelhantes consumiram. Na prática, há dúvidas sobre como funciona e o que pretende. Neste artigo de Tiago Lucena, Eduarda Garcia, Mariana Brezovsky e Thiago Ferraiol, os autores investigam o tema a fundo, entrecruzando o posicionamento oficial da Netflix com análises críticas sobre o avanço da tecnologia dentro do capitalismo de vigilância.
“Algoritmos de recomendação: um estudo sobre como funciona e como é descrito o sistema de recomendações da Netflix”
Por Tiago Franklin Rodrigues Lucena, Eduarda Carretero Garcia, Mariana Maronezzi Brezovsky e Thiago Fanelli Ferraiol
Rebeca (SOCINE)
v. 12, n. 2, 2024
Um metaverso para chamar de seu
Não se sabe como vai ser a internet do futuro, mas Mark Zuckerberg tem um plano. Em 2021, anunciou que o Facebook passaria a se chamar Meta e que a criação de um metaverso, centrado no desenvolvimento da Realidade Virtual (RV), seria o próximo passo. Professor da Universidade de Nova York, Scott Galloway vai de encontro às pretensões de Zuckerberg, questionando, por exemplo, a capacidade do uso de óculos de RV se tornar um hábito real. Ao Zuckerverse, como ele denomina a investida do CEO da Meta, ele contrapõe o que chama de Appleverse, já que produtos inteligentes como iPhone, AirPods e Apple Watch circulam hoje de forma mais tangível. Os pesquisadores Carlos Pernisa Júnior e Marcelo Ferreira Moreno destrincham esse e outros argumentos neste artigo que advoga por um metaverso mais plural e inclusivo.
“Metaverso: possibilidades para um ambiente imersivo”
Por Carlos Pernisa Júnior e Marcelo Ferreira Moreno
Alceu (PUC-Rio)
v. 23, n. 49, 2023
A mídia e a extrema direita
Qual o papel da TV na propagação e normalização do discurso de ódio? E da incitação a crimes contra o Estado Democrático de Direito? Para ir atrás das respostas, os pesquisadores João Paulo Malerba e Rosângela Fernandes analisam seis edições dos programas Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, e Alerta Nacional, da Rede TV!, em três momentos críticos à estabilidade democrática brasileira, entre o fim de 2022 e o início de 2023. Antes disso, apresentam uma breve genealogia dos programas policialescos e sua relação, por exemplo, com a violação de direitos humanos, e uma discussão acerca da própria definição de discurso de ódio. A pesquisa sublinha o alinhamento de tais programas à extrema direita representada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
“‘Tem uma hora que você tem que puxar o gatilho!’: discurso de ódio, apologia e incitação ao crime na TV no pós-eleições 2022”
Por João Paulo Malerba e Rosangela Fernandes
Mídia e Cotidiano (UFF)
v. 18, n. 1, 2024

