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abr 7, 2025

Acoragem e engate

Dez anos após seu lançamento, Que Horas Ela Volta? (2015) continua presente no debate público brasileiro. Dirigido por Anna Muylaert, o filme é considerado um dos mais emblemáticos do cinema nacional dos anos 2010. Neste artigo, o pesquisador Eduardo Paschoal de Sousa tenta aferir “a utilização da obra como ferramenta política” sob duas perspectivas. No que chama de ancoragem, ele analisa “como o filme se ancora em debates políticos e sociais, a partir de suas representações, em um movimento desencadeado ou potencializado pela circulação das obras”. Já no que chama de engate, privilegia a ação do espectador, “que se conecta com a obra, toma-a para si, constrói suas interpretações sobre ela, ou movimenta as interpretações que já estavam presentes”. Concomitantes, ambos os movimentos potencializam os sentidos do filme e as discussões por ele engendradas.

“A circulação e as interpretações políticas de Que horas ela volta?
Por Eduardo Paschoal de Sousa
Rumores (USP)
v. 18 n. 36, 2024

Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015).

Por um cinema anticolonial

O artigo de Karina Gomes Barbosa e Rodrigo Castro se dedica a uma análise fílmica de Patrimônio Nacional (2013), curta-metragem de ficção científica da diretora palestina Larissa Sansour. A análise leva em consideração as categorias violência, território, temporalidade e vestígios, relacionando-as às imagens criadas pela artista. De maneira complementar, os autores mobilizam entrevistas de Sansour sobre o próprio trabalho e sobre a situação da Palestina. Para Barbosa e Castro, “Larissa Sansour, através de Patrimônio Nacional, se estabelece como uma força anticolonial, endereçando uma contundente crítica ao sionismo e aos empreendimentos capitalistas que acompanham processos de colonialidade como este”. Ainda, a escolha pelo gênero da ficção científica seria uma estratégia de suspensão do presente “para reimaginar as possibilidades de existência do povo palestino na realidade em que se insere”.

 “O cinema de Larissa Sansour e a solução de um Estado no conflito Israel-Palestina”
Por Karina Gomes Barbosa e Rodrigo Castro
Rebeca (SOCINE)
v. 13 n. 1, 2024


Fotografia e poder

O pesquisador Edson Pereira da Costa Júnior discute como o cinema é capaz de incorporar a fotografia na realização de um filme. Mais do que isso, como essa incorporação pode influenciar na proposta estético-política do realizador. No caso deste artigo, ainda que mencione os trabalhos do tailandês Apichatpong Weerasethakul e do chinês Wang Bing, Júnior mergulha na obra do português Pedro Costa para “refletir sobre como o fotográfico enforma em sua obra o engajamento político diante das pessoas filmadas”. Para isso, avalia três exemplos: o scrapbook do longa-metragem Casa de Lava (1994); a inclusão de fotografias do dinamarquês Jacob Riis na introdução de Cavalo Dinheiro (2014); e, ainda em Cavalo Dinheiro, as escolhas estéticas que resultaram, por exemplo, em planos mais longos. Segundo o autor, o dispositivo fotográfico, “embora não dissipe as estruturas de poder, atua como mediação social face aos sujeitos filmados”.

“O fotográfico e as mediações sociais em Pedro Costa”
Por Edson Pereira da Costa Júnior
Famecos (PUC-RS)
v. 31 n. 1, 2024

Cavalo Dinheiro (Pedro Costa, 2014).

Arquivos revisitados

Em 2024, a Oficina de Produção Audiovisual, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, completou dez anos de atividades. Criada com o objetivo de provocar discussões nos campos da linguagem audiovisual, da história e da memória, a Oficina é um espaço para realização de curtas-metragens elaborados a partir do vasto acervo do CPDOC-FGV. Aqui, Thais Blank e Priscila Rodrigues Bittencourt dissertam sobre “como as dinâmicas de participação e as tensões entre diferentes repertórios e expectativas impactam os processos de criação dos filmes, especialmente na apropriação e ressignificação de arquivos históricos por alunas e realizadoras”. Atentas ao que se convencionou chamar de “virada arquivística”, as pesquisadoras sublinham a abordagem feminista adotada pelo projeto, a fim de “desnaturalizar práticas arquivísticas, questionando hierarquias de gênero e poder”.

“Narrativas visuais e arquivos silenciados: novos olhares a partir da Oficina de Produção Audiovisual”
Por Thais Blank e Priscila Rodrigues Bittencourt
Alceu (PUC-Rio)
v. 24 n. 54, 2024


Filmes sambeiros

A década de 1950 foi aquela que consagrou as comédias musicais brasileiras – as chanchadas. Intrigado pelo lugar ocupado pelo samba nessas produções, o pesquisador Guilherme Maia desenhou um corpus formado por 14 obras e 230 números musicais para dar início a sua investigação. Embora haja uma predominância de filmes com a palavra “samba” no título, ele como gênero musical, por exemplo, não é o mais representado na tela. Diferentemente do cinema argentino, que ficou marcado pelas películas tangueras, o cinema brasileiro não encontra em sua tradição o que poderia ter sido chamado, Maia sugere, de filmes sambeiros. Ainda assim, ele elege três longas-metragens com sequências que priorizam o samba para uma análise aprofundada. São eles: É de Chuá (1958), de Victor Lima; Depois Eu Conto (1956), de José Carlos Burle; e Quem Roubou Meu Samba (1959), também dirigido por José Carlos Burle.

“Cadências do samba em chanchadas musicais da década de 1950”
Por Guilherme Maia
E-Compós (Compós)
v. 27, 2024


Girl from Rio

Nascida e criada em Honório Gurgel, subúrbio do Rio de Janeiro, a cantora Anitta fez história em 2022: foi a primeira brasileira a vencer uma categoria do Video Music Awards da MTV, a alcançar o número 1 da parada mundial do Spotify e a se apresentar no palco principal do festival Coachella.O pesquisador Leonardo Rodrigues vem acompanhando a trajetória da artista. Neste texto, a partir da transmissão do show no festival californiano, ele investiga como Anitta “promove a favela como cultura e identidade brasileiras”, ao mesmo tempo em que discute “quais as implicações dessa abordagem, considerando as representações ambivalentes formadas sobre esses espaços”.Para tanto, Rodrigues mobiliza um referencial teórico que vai dos estudos culturais aos estudos de performance.

“Favela, cartão-postal do Brasil? Representações ambivalentes sobre cultura e identidade nacionais na performance de Anitta em palco estrangeiro”
Por Leonardo Rodrigues
Galáxia (PUC-SP)
v. 49, n. 1, 2024


O homem da flor de lótus

Quem é o homem em The White Lotus? Ou como a segunda temporada da série-sensação enquadra três de seus personagens masculinos? Ambientada em um resort de luxo na Itália, a safra de episódios lançada em 2022 pela HBO coloca sob escrutínio um avô octogenário, um filho na meia idade e um neto. Os pesquisadores Tatiana Siciliano, Valmir Moratelli e Bruna Aucar observam a construção desses personagens com uma lupa. “O trio demarca seu lugar geracional no modo de falar, na maneira de vestir e na inserção nos debates contemporâneos. Mas, os ardis da trama os levam a reproduzir, mesmo que de modos distintos, certo habitus da masculinidade, especialmente em relação ao outro gênero”, afirmam.

“‘Programados pela testosterona’: gerações e masculinidade em The White Lotus
Por Tatiana Siciliano, Valmir Moratelli e Bruna Aucar
Eco-Pós (UFRJ)
v. 27, n. 3, 2024

The White Lotus (HBO, 2022).