Viva Bernardet
Crítico, pesquisador, professor, escritor, tradutor, roteirista, cineasta e ator, Jean-Claude Bernardet viveu muitas vidas em uma. Em todas elas, teve o cinema como protagonista. Em homenagem a seu legado, a revista Matrizes (USP) disponibiliza uma entrevista nunca antes publicada com Bernardet. Concedida ao diretor Fábio Rogério durante o Fest Aruanda, em João Pessoa (PB), ela perpassa episódios biográficos e a relação profunda que o crítico belga-brasileiro estabeleceu com o cinema. Sobre ter dedicado seu livro seminal Brasil em Tempo de Cinema ao personagem glauberiano Antônio das Mortes, ele afirma: “Eu me identifiquei muito com o fato de ele ser vacilante, de estar de um lado e também do outro. Eu me sinto assim também, não tanto politicamente, mas devido às duas culturas que me formaram, às duas nacionalidades, e pelo fato de eu ter tido uma infância na França inesquecível, muito marcada pela guerra”.
“Jean-Claude Bernardet: uma homenagem”
Por Fábio Rogério
Matrizes (USP)
v. 19, n. 2, 2025
Um só mundo
A professora e pesquisadora Cecília Mello não deixa referência alguma de fora deste ensaio acerca de possíveis definições para a noção de cinema mundial. Mello reúne autores fundamentais para o debate e dialoga criticamente com todos eles a fim de pensar caminhos. Seu ponto de partida é a contribuição pioneira de Lúcia Nagib, que descarta o binarismo de centro e periferia implícito na categoria de World Cinema aplicada a filmes feitos fora dos Estados Unidos e da Europa, como se filmes brasileiros, por exemplo, não fizessem parte do mesmo mundo. “O ‘cinema mundial’, tomado como um fenômeno policêntrico, espera, portanto, restabelecer o equilíbrio. Ele evita discursos de dominância (…) que tendem a desconsiderar a importância das especificidades culturais na formação de tendências cinematográficas em diferentes partes do mundo”, corrobora Mello. As complexidades inerentes a essa reinterpretação do conceito são apontadas pela autora, que comenta de geopolítica a teoria pós-colonial.
“Policentrismo, periferia e o lugar do cinema brasileiro no cinema mundial”
Por Cecília Antakly de Mello
Alceu (PUC-Rio)
v. 25, n. 55, 2025
Shakespeare versão IA
Escrita originalmente por volta do ano de 1600, é possível adaptar Hamlet por meio da Inteligência Artificial Generativa? A iniciativa dos pesquisadores Roberto Tietzmann e Paula Puhl investiga as características da tecnologia como ferramenta criativa na adaptação de uma cena do clássico shakespeareano. Para isso, eles elaboraram “uma metodologia em cinco etapas propondo uma série de fluxos de trabalho utilizando ferramentas de IAG, cotejadas por passos de validação como forma de conter possíveis alucinações e imprecisões características das IAGs”. Como referência de adaptação de sucesso, Tietzmann e Puhl acionam o filme homônimo dirigido e protagonizado por Laurence Olivier em 1948. Embora atestem que a IA “acelera processos laboriosos para humanos”, também apontam que ela “implica uma possível perda da noção de unidade, controle e autoria”.
“Adaptando Hamlet com IA: uma exploração de procedimentos de adaptação complementados por máquinas”
Por Roberto Tietzmann e Paula Puhl
Ação Midiática (UFPR)
n. 30, 2025
Cinema e contracolonialidade
Estrelado por Viola Davis, o longa-metragem A Mulher Rei conta a história de Nanisca, uma comandante do exército de Daomé, um dos reinos mais importantes da África entre os séculos XVII e XIX. Lançado em 2022 e dirigido por Gina Prince-Bythewood, o filme é analisado pela ótica da contracolonialidade, conceito desenvolvido por Antônio Bispo dos Santos e recuperado no artigo de Maylla Monnik Rodrigues de Sousa Chaveiro, Carine Campos Santos e Ryan Lopes de Freitas. Definida por Bispo como “a arte de botar nome para poder não ser dominado”, a noção de contracolonialidade se aplica ao fato de que as guerreiras do filme não apenas negam as perspectivas eurocêntricas, como literalmente resistem aos portugueses colonizadores. Em sua leitura crítica, o artigo defende “a ideia de que o olhar para África em perspectiva pré-colonial é a chave para nosso processo de descolonização subjetiva”.
“A Mulher Rei: uma leitura crítica a partir da perspectiva contracolonial”
Por Maylla Monnik Rodrigues de Sousa Chaveiro, Carine Campos Santos e Ryan Lopes de Freitas
Rebeca (SOCINE)
v. 14, n. 1, 2025
Ground control to Major Tom
Dentre as muitas personas encarnadas por David Bowie, o astronauta Major Tom reluz. Presente em pelo menos quatro canções do cantor e compositor britânico, de Space Oddity em 1969 a Blackstar em 2016, Major Tom aparece também em composições de outros artistas. Essa presença literária atípica chamou a atenção de pesquisadores, que logo a relacionaram à ideia de mitos literários ou, mais especificamente, mitos do individualismo moderno, assim como estudado pelo crítico Ian Watt. Major Tom seria, portanto, um novo tipo de mito individualista surgido no fim do século passado em meio à ascensão do neoliberalismo. Dividido em três partes, o artigo de Anderson Cleiton Fernandes Leite e Emerson Ferreira Gomes começa por apresentar a discussão conceitualmente, passa à análise de letras e videoclipes e, por fim, alia-se a Mark Fisher e Anselm Jape para traçar o perfil de Major Tom como um mito contemporâneo.
“O personagem Major Tom, de David Bowie, como mito do individualismo contemporâneo”
Por Anderson Cleiton Fernandes Leite e Emerson Ferreira Gomes
Famecos (PUCRS)
v. 32, n. 1, 2025
Por um ética amorosa
Novela de maior sucesso da faixa das 19h da TV Globo nesta década, Vai na Fé (2023) é o objeto de pesquisa de Ana Paula Nunes em artigo publicado na revista Logos (UERJ). Nele, a pesquisadora aborda a ética amorosa, a partir das perspectivas teóricas de bell hooks e Renato Noguera, na trama escrita por Rosane Svartman. Na análise, o destaque vai para a amizade entre as personagens Sol (Sheron Menezzes) e Bruna (Carla Cristina Cardoso), marcadamente também envolta no poder da música. Atenta à questão racial, eixo principal da novela, Nunes joga luz sobre “o papel das amizades entre mulheres negras, pois estas são práticas da liberdade de toda uma construção histórica perversa de falta e de violência”.
“Vai na Fé: ética amorosa na amizade entre mulheres”
Por Ana Paula Nunes
Logos (UERJ)
v. 31, n. 2, 2024
Infância e YouTube
Com o intuito de “compreender de que modo a visibilidade produzida por crianças protagonistas de vídeos do YouTube repercute socialmente nas compreensões contemporâneas de infância”, este artigo de Renata Oliveira Tomaz é também uma contribuição ao corrente debate sobre o assunto. Entre os anos de 2017 e 2019, a autora cadastrou os termos youtubers e youtubers mirins para coletar notícias por meio de um alerta do Google. Uma vez coletadas, o corpus priorizou 43 notícias para análise de conteúdo, que teve como enfoque as palavras-chave justiça, publicidade e riscos à proteção da criança. Nesse sentido, “a visibilidade, comumente materializada em altos números de seguidores e de visualização de canais infantis do YouTube, apareceu com novos contornos – notadamente de vulnerabilidade”, afirma a pesquisadora.
“Do YouTube à notícia: vulnerabilidade e agência nas representações de crianças produtoras de conteúdo”
Por Renata Oliveira Tomaz
Galáxia (PUC-SP)
v. 48, n. 1, 2023

